Mucopolissacaridose: você sabe o que é essa condição genética de nome complicado?
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Uma criança que cresce devagar. Infecções de ouvido que não param. Uma hérnia, depois outra. Ossos que não se formam como deveriam. Sozinhos, cada um desses sinais parece ter uma explicação simples. Juntos, podem ser o sinal de uma doença rara, progressiva e ainda pouco conhecida: a mucopolissacaridose.

A mucopolissacaridose (MPS) é uma doença genética rara que afeta o metabolismo. Ela acontece quando o organismo não produz, ou produz em quantidade insuficiente, determinadas enzimas responsáveis por quebrar moléculas chamadas glicosaminoglicanos (também conhecidas como mucopolissacarídeos).
Essas moléculas ajudam a transportar nutrientes entre as células e sustentam a estrutura do tecido conjuntivo, que está presente em praticamente todos os órgãos do corpo. Quando as enzimas falham, essas substâncias se acumulam nas células progressivamente e começam a causar danos em múltiplos sistemas. Por exemplo, nos ossos, nas articulações, no coração, nos pulmões, no fígado, no baço, no sistema nervoso e muito mais.
A doença é hereditária e, na maioria dos tipos, segue um padrão chamado autossômico recessivo, que significa que a criança precisa herdar uma cópia alterada do gene de cada um dos pais para desenvolver a doença. Os pais, em geral, não apresentam sintomas, mas carregam o gene e têm 25% de chance, em cada gestação, de ter um filho afetado. A exceção é a MPS tipo II (síndrome de Hunter), ligada ao cromossomo X: nesse caso, a mãe portadora é saudável, mas tem 50% de chance de ter um filho do sexo masculino com a doença, o que explica por que esse tipo afeta predominantemente meninos.
Diferentes tipos de mucopolissacaridose
Existem pelo menos sete tipos de MPS, classificados de acordo com a enzima que está ausente ou deficiente. São eles:
MPS I (inclui três fenótipos, as síndromes de Hurler, Hurler-Scheie e Scheie)
MPS II (síndrome de Hunter)
MPS III (síndrome de Sanfilippo e tem quatro subtipos – A, B, C e D)
MPS IV (síndrome de Morquio)
MPS VI (síndrome de Maroteaux-Lamy)
MPS VII (síndrome de Sly e dois subtipos – A e B)
MPS IX (síndrome de Natowicz)
A MPS V foi historicamente reclassificada como uma variante de MPS I (síndrome de Scheie) e a MPS VIII nunca foi confirmada como uma distinta. Cada tipo tem um perfil próprio de sintomas , com diferentes graus de gravidade.
No Brasil, o tipo mais prevalente é o II, registrado em aproximadamente um a cada 200 mil nascidos vivos. No geral, a doença acomete cerca de 1 em cada 22,5 mil bebês nascidos vivos no mundo. No Brasil, a estimativa do Ministério da Saúde é de 1,57 paciente para cada 100 mil nascidos (*)
Os sinais que o corpo dá
Na maioria das vezes, o bebê nasce aparentemente saudável. Os primeiros sinais costumam surgir nos primeiros meses de vida e se tornam mais evidentes com o passar do tempo, conforme o acúmulo de substâncias aumenta. Em alguns casos, porém, já ao nascimento pode haver sinais como aumento do fígado e do baço ou acúmulo de lquidos em cavidades do corpo.
As manifestações da MPS são variadas e afetam múltiplos sistemas. No aspecto físico, podem aparecer alterações faciais como testa proeminente, nariz achatado, olhos mais afastados, língua aumentada e queixo retraído. A criança pode ter pescoço curto, baixa estatura, deformidades nos ossos, rigidez nas articulações e dificuldade de movimento. Hérnias inguinais e umbilicais também são frequentes, assim como excesso de pelos.
Do ponto de vista respiratório e cardíaco, infecções recorrentes de ouvido, nariz e garganta, apneia do sono e problemas no coração fazem parte do quadro. Fígado e baço aumentados são comuns. Neurologicamente, algumas formas da doença levam a déficit cognitivo progressivo, aumento do perímetro cefálico e alterações no sistema nervoso central. Perda auditiva e problemas de visão completam o espectro.
O desafio do diagnóstico
O conjunto de sintomas é amplo. Esse é um dos pontos mais delicados quando falamos de mucopolissacaridose. Cada sintoma isolado pode facilmente ser atribuído a outra condição: a hérnia é tratada como hérnia, as infecções de ouvido são vistas como algo comum na infância, a baixa estatura é investigada como problema hormonal. Como os sinais surgem de forma gradual e se espalham por especialidades diferentes, a criança muitas vezes percorre um longo caminho entre pediatras, ortopedistas, otorrinolaringologistas e outros especialistas antes de chegar a um diagnóstico correto.
Além disso, por ser uma doença rara, muitos profissionais de saúde não têm familiaridade com ela no dia a dia. O diagnóstico tardio é, infelizmente, ainda muito comum e cada mês sem tratamento representa progressão do acúmulo de substâncias e mais danos aos órgãos.
O papel do médico geneticista
É aqui que o geneticista entra como peça central no cuidado dessas crianças. Diante de um quadro com sintomas variados, aparentemente sem conexão, mas com algo em comum que sugere uma doença de base, o geneticista é o profissional treinado para pensar de modo sistêmico e reconhecer padrões que indicam uma condição genética.
Para confirmar a mucopolissacaridose, são realizados exames de sangue que medem a atividade das enzimas suspeitas. Exames de urina também podem revelar o excesso de glicosaminoglicanos sendo eliminado pelo organismo. Radiografias mostram alterações ósseas características, e testes genéticos identificam as mutações específicas responsáveis pela doença. Em gestações com histórico familiar, o diagnóstico pode ser feito ainda antes do nascimento, por meio de amniocentese ou biópsia de vilosidades coriônicas.
O geneticista não apenas fecha o diagnóstico, mas também orienta a família sobre o padrão de herança, calcula os riscos para gestações futuras, coordena o acompanhamento multidisciplinar e acompanha a evolução do quadro ao longo do tempo.
Possíveis tratamentos
A mucopolissacaridose não tem cura. Mas isso não significa que não há o que fazer. O tratamento adequado pode mudar significativamente a qualidade e a expectativa de vida do paciente.
A principal abordagem disponível é a terapia de reposição enzimática. Esse procedimento consiste em administrar, por via intravenosa, a enzima que o organismo não consegue produzir. Apesar de não eliminar o problema genético, reduz o acúmulo de substâncias e ameniza a progressão dos sintomas. Em alguns casos selecionados, quando a doença é identificada precocemente e os sintomas ainda são leves, o transplante de medula óssea ou de células-tronco pode ser considerado, embora seja uma opção com riscos e resultados variáveis.
O cuidado dos sintomas envolve uma equipe multiprofissional: além do geneticista, participam pediatras, cardiologistas, pneumologistas, ortopedistas, neurologistas, oftalmologistas, otorrinolaringologistas, fonoaudiólogos, dentistas e fisioterapeutas. Cada especialidade cuida de um aspecto da doença, e é fundamental que a equipe atue de modo integrado.
O teste do pezinho ampliado
Uma das ferramentas para o diagnóstico precoce de doenças metabólicas raras, incluindo algumas formas de mucopolissacaridose, é o teste do pezinho ampliado. O teste do pezinho existe no Brasil desde os anos 1970 e é obrigatório desde 1992. Na versão básica, ainda a mais ofertada na maioria dos municípios, ele detecta apenas seis doenças.
A versão ampliada, por sua vez, é capaz de identificar mais de 50 condições pertencentes a 14 grupos diferentes, incluindo doenças de depósito lisossômico como a MPS. Para realizar o teste é feita uma pequena coleta de sangue no calcanhar do recém-nascido. O ideal é que seja realizada entre o terceiro e o quinto dia de vida.
Em 2021, uma lei determinou que, até 2026, todos os serviços de saúde públicos e privados do país deveriam oferecer a versão ampliada do exame. Por enquanto, o teste é oferecido na rede privada. No SUS, a implementação é gradual e não está disponível em todos os estados.
O exame é muito importante porque se a mucopolissacaridose for diagnosticada nas primeiras semanas de vida, o tratamento pode ser iniciado precocemente. Quanto mais cedo o bebê começa a ser tratado, menores serão os danos acumulados.
Um diagnóstico que muda histórias
Saber o que se tem permite tratar o que é possível, prevenir o que é evitável e planejar com mais segurança o futuro. Se você perceber que seu filho apresenta sintomas que surgem aos poucos, em diferentes partes do corpo, sem uma causa aparente, busque avaliação médica. E se houver histórico de doenças genéticas raras na família, converse com um geneticista.
(*) Fontes:



