O que é terapia gênica?
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Você já ouviu falar em terapia gênica? É possível que sim porque o termo ganhou espaço na mídia em outubro de 2025, quando o Sistema Único de Saúde (SUS) passou a oferecer à população esse tratamento para pacientes com Atrofia Muscular Espinhal (AME). Mas antes desta data, em 2009, a terapia genica já era objeto de pesquisa.

A incorporação no SUS da terapia genica para AME foi uma medida de extrema importância porque ampliou o acesso desse tratamento, que é bastante caro, às pessoas que não têm condições de arcar com os custos.
Entender o que é terapia gênica é importante, entre outros aspectos, porque logo que o assunto ganhou mais divulgação, muitas informações totalmente distorcidas começaram a circular. Entre elas, que o benefício que o paciente teve com a terapia gênica torna-se hereditário ou que o tratamento é milagroso e cura todo tipo de condição genética.
Sem dúvida, os avanços da terapia gênica são uma grande conquista com perspectivas de beneficiar cada vez mais pacientes com diferentes condições genéticas. Mas não há milagre, é ciência, e os benefícios conquistados pelo paciente não se tornam hereditários. Então, vamos lá entender o que é terapia gênica.
Terapia gênica
Condições genéticas ocorrem quando existe uma alteração em um gene que impede que ele funcione corretamente ou faz com que produza proteínas defeituosas. São condições que podem ser hereditárias ou adquiridas. Medicamentos de terapia gênica podem tratar com resultados animadores, algumas dessas condições.
Simplificando, a terapia gênica funciona das seguintes formas:
Pode editar, ou seja, consertar o gene causador da doença.
Fornecer uma cópia do gene que funcione para produzir a proteína necessária ao organismo
Silenciar o gene que impede uma proteína de exercer sua função.
Diferentes técnicas e métodos
Por enquanto, a terapia gênica pode ser realizada por diferentes abordagens moleculares, não se restringindo apenas a CRISPR e CAR-T. A tecnologia CRISPR é uma ferramenta de edição genômica que permite modificar regiões específicas do DNA relacionadas à doença. Já a terapia CAR-T consiste em uma forma de imunoterapia celular na qual linfócitos T são geneticamente modificados para reconhecer e eliminar células tumorais. Além dessas, existem outras estratégias, como a adição de genes por vetores virais e o uso de oligonucleotídeos antisense.
Terapias gênicas podem ser administradas pelos métodos:
• In vivo: o gene terapêutico é introduzido diretamente no organismo do paciente, direcionado a um órgão ou tecido específico, podendo ser administrado por infusão intravenosa ou por injeções localizadas.
• Ex vivo: células do paciente, como células-tronco hematopoéticas ou linfócitos T, são removidas, modificadas em laboratório para corrigir o defeito genético e, posteriormente, reinfundidas no paciente.
Para transportar o material genético para dentro das células, podem ser utilizados vetores virais modificados em laboratório, projetados para não causar doença, como AAV (Virus Adeno-Associado), lentivírus, adenovírus e retrovírus.
Em alguns casos, a administração pode ser direcionada ao sistema nervoso central. No entanto, no caso da AME, a terapia gênica aprovada é administrada por via intravenosa, utilizando um vetor capaz de atravessar a barreira hematoencefálica.
Independentemente do método utilizado, o efeito terapêutico depende do tipo de abordagem empregada. Em terapias ex vivo com vetores integrativos, o gene terapêutico pode ser incorporado ao genoma e transmitido às células-filhas. Já em terapias in vivo com vetores como AAV, o material genético geralmente permanece de forma não integrada, permitindo expressão prolongada principalmente em células de baixa divisão
Doenças raras que podem ser tratadas
A terapia gênica traz novas perspectivas para pacientes acometidos por diversas condições. Um dos exemplos é a AME, condição genética rara e progressiva que compromete os neurônios motores, dificultando funções básicas para a sobrevivência, como respirar, andar e falar. Mas há outras, como:
Adrenoleucodistrofia cerebral, que afeta o sistema nervoso e as glândulas suprarrenais. Entre os sintomas estão alterações comportamentais e cognitivas.
Doenças sanguíneas hereditárias, como a anemia falciforme (células no formato de foice e dor intensa), a talassemia (falta de hemoglobina e palidez extrema) e a hemofilia ( falta de coagulação e sangramentos).
Doenças musculares como a distrofia muscular de Duchenne (fraqueza muscular nos músculos esqueléticos e cardíacos).
Doenças da retina dos olhos, como a amaurose congênita de Leber (afeta a retina de bebês provocando visão muito comprometida e até cegueira).
Leucodistrofia metacromática (declínio progressivo das funções mentais e motoras).
Esses são apenas alguns exemplos e a cada dia as pesquisas mostram novas possibilidades. As terapias gênicas oferecem tratamentos com possibilidade de cura para situações em que a única opção era cuidar do paciente com objetivo de lhe proporcionar mais qualidade de vida. Também é um tratamento conveniente porque, até o momento são de dose única. Outro importante benefício é que a terapia gênica trata a causa da doença e não apenas sintomas.
Mas há desafios que precisam ser superados. Primeiro é um tratamento com alto custo de produção que reflete no valor com que chega ao paciente, limitando o acesso a todas as pessoas. Também há questões de segurança e eficácia no longo prazo e a complexidade regulatória.
Primeiro Ensaio Clínico Nacional (2009)
Em fevereiro de 2009, em Porto Alegre, teve início o primeiro ensaio clínico de terapia gênica desenvolvida na América do Sul Asgard, com foco no tratamento de isquemia cardíaca.



